domingo, 20 de abril de 2008

Este homem quer me deixar louco


Notem os olhos pesados. As olheiras. A boca entreaberta. O cabelo desarrumado. Traços de um sociopata? Algum insano foragido de um manicômio?

Não. Este é Philip Glass, compositor americano. Seus trabalhos atormentam e me perseguem.

As pessoas geralmente tem um canal principal para receberem estímulos. O meu sempre foi o auditivo. No caso das composições deste homem, elas me causam um impacto físico e emocional tão grande que mal consigo suportá-las.

Tudo começou há uns quinze anos quando vi um trecho do filme Koyaanisqatsi demonstrando equipamentos de home-theater numa loja. Sem diálogos, o filme mostra imagens do mundo acompanhadas da música de Glass. As repetições melódicas, sua marca registrada, fundem-se perfeitamente com as imagens em câmera lenta e time-lapse. E nestas repetições vive a semente da minha insanidade. 

No início, elas estão no fundo, dando base para melodias belíssimas. Consigo visualizar as células do meu corpo em grupos de 1 cm3. Dentro destes, menores agregados se formam, cada um respondendo a um determinado conjunto de instrumentos nas composições de Glass. Inicialmente, as vibrações geram um conforto, uma paz. Mas, aos poucos, em incrementos matematicamente precisos, as repetições vão acelerando e tomando conta de toda a melodia. Todas as camadas de repetições sonoras são independentes e trabalham em quase todos os grupos de frequências. Chego a ficar levemente nauseado, tal é o desconforto que me causa. Sinto medo. Parece que meu coração vai perder o ritmo e entrar em colapso.

Mas, exatamente como tudo que me causa desconforto, sua música também me fascina. Afinal de contas, me move e este é o elemento mais importante.

Considerado um minimalista e pós-modernista, ele já fez diversas composições para solos, concertos e óperas, mas tenho mais conhecimento de suas trilhas para filmes. As Horas, The Truman Show, Candyman. Consigo "farejar" o trabalho de Glass em menos de 5 segundos. O exemplo mais recente foi no teaser do jogo Grand Theft Auto IV. Desde a primeira vez que vi suspeitei que a música era dele. Hoje fiz a confirmação.

Primeiro assisti o trailer o filme Glass, a Portrait of Philip in 12 Parts. Logo entrei no seu site oficial e comecei a coletar mais informações. Na seção Music, há um player no link listen/watch, que começa com Knee 1, a abertura delirante para a ópera Einstein On The Beach. Na sequência, pode-se ouvir a trilha de Koyaanisqatsi. O pessoal da Rockstar escolheu a faixa Pruit Igoe para o teaser, chegando a editá-lo no estilo do filme.

"Apreensão existencial"? "O portal acústico ao desconhecido"? "Uma composição sempre ascendente que nunca chega aos Céus"? Julgue por si próprio.

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