segunda-feira, 3 de março de 2008

trilha sonora para sonhos diurnos


Que pena que só descobri isto agora, cinco para as duas da manhã. Trent Reznor se superou. Ele acaba de lançar Ghosts I-IV, uma coleção de músicas instrumentais. Quase duas horas de composições originais gravadas durante um período de dez semanas durante o final do ano passado.

De acordo com o site, Trent explica: "Estive considerando e esperando para fazer este tipo de disco durante anos, mas por sua própria natureza não teria feito sentido até este momento. Esta coleção de músicas é o resultado de um trabalho feito por uma perspectiva muito visual - vestindo locais imaginários e cenários com som e textura; uma trilha sonora para sonhos diurnos. Estou muito satisfeito com o resultado e com a habilidade de apresentá-lo diretamente a vocês sem interferência. Espero que desfrutem dos primeiros quatro volumes de Ghosts".

O projeto nasceu de sessões em estúdio onde não havia nenhum tipo de plano maior. Improvisação pura e simples. Como músico posso dizer que os melhores momentos são os que não se tenta fazer nada e, de repente, a música sai. É pleno orgasmo musical. Uma epifania.

O site apresenta um player em que algumas faixas podem ser escutadas. Os instrumentos incluem os timbres elétricos industriais bem conhecidos da banda. Mas também há percussões delicadas, cordas sutis e frases sempre emotivas no piano. Os temas variam de paz e encantamento, a raiva e desequilíbrio. Medo e sofridão, a esperança e alegria. Uma viagem sonora esplêndida. E as faixas são brilhantemente batizadas com digitos, à lá Jean Michel Jarre. ;-)

Sempre gostei das faixas instrumentais do Trent e sempre torci para que ele fizesse trilhas para cinema. Ele até fez algumas faixas para o One Hour Photo (odeio o título em português) do Mark Romanek (veja meu post sobre ele), mas nunca ganharam destaque. Ele até chegou a lançá-las em um EP da banda. Mas só.

Ghosts é um desejo realizado.

Quanto custa? Ghosts I sai pela bagatela de US$ 0,00. Nada. Zilch. Você mesmo pode baixar agorinha. Download imediato e sem proteção. Ah, e ainda inclui um encarte em PDF, fundos de tela e ícones. Mas nada MP3 "podrera". É 320kbps codificados com o LAME e tags bonitinhos.

Ghosts I, II, III e IV: US$ 5,00. Nesta opção, pode-se também baixar em FLAC ou Apple Lossless. Que chique...

Para os mais saudosos, que gostam de um bom design gráfico e apresentação física de produto, como eu, é possível também encomendar a versão em CD duplo, num Digipac de seis láminas (já estou curioso) por US$ 10. Dez dólares! Assim dá vontade de gastar dinheiro com música.

Por US$ 75, a versão de luxo é entregue em uma linda caixa aveludada com dois livros de capa dura. O primeiro contendo os dois CDs, mais um DVD de dados com todas as faixas prontas para remix e um Blu-Ray com slideshow e audio estéreo de alta resolução. O segundo livro de 48 páginas apresenta fotos de Phillip Graybill e Rob Sheridan, brilhante colaborador visual dos últimos trabalhos da banda. Quem disse que música é só áudio?



E tem a versão ultra de luxo limitada a 2.500 unidades. O mimo ainda acompanha 4 LPs e um terceiro livro com duas fotos em giclée de alta qualidade (também tive que pesquisar o que é). Cada uma assinada individualmente pelo homem em pessoa. US$ 300,00. Gosto de NIN, mas nem tanto.


Sem resumo: este é um trabalho musical espontâneo, mas ao mesmo tempo muito elaborado. Eu também trataria assim se fosse filho meu. E vem para provar que todos nós, seres conectados deste planeta digital, temos que rever os nossos conceitos sobre consumo e apreciação de qualquer trabalho artístico. Quando um artista de peso decide abrir mão de todo o conforto de um contrato que uma gravadora pode proporcionar em prol da sua liberdade de expressão, o mercado começa a mudar. As percepções começam a ficar deslocadas. E o trabalho sai mais do coração. Quem está aberto para receber, percebe. Algo que chamaria de gratificação bi-direcional.

Um comentário:

_NIN_ disse...

o TR se supera cada vez mais.